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Educação Artística, Trabalho e Vida

* Texto publicado originalmente no site Instituto Arte na Escola (ver link) e reproduzido integralmente no site da Partilha Consultoria. Acreditamos muito nessa visão sobre a relação entre Arte e Desenvolvimento Humano, com a qual trabalhamos em nossos serviços. Ao longo do texto, grifos nossos destacando os pontos-chaves dessa concepção.


"Todas as pessoas têm disposição para trabalhar criativamente, o que acontece é que a maioria jamais se dá conta disso".(Truman Capote)


"Imaginar é mais importante do que saber, pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abarca o universo". (Albert Einstein)


Palavra inicial

“Educação Artística e o Ganha-Pão” foi o texto com que eu dialoguei para redigir estas páginas. Trata-se de um estudo sobre o significado da educação artística, para as perspectivas econômicas dos educandos, independentemente do ramo de atividade em que pretendam atuar.


A primeira indagação é se a educação artística deve ser considerada um luxo, algo complementar ou meramente acessório em relação ao ensino das matérias essenciais, como línguas, ciências ou matemática. A resposta é não. O desenvolvimento da criatividade e do senso estético é, e será cada vez mais, um requisito importante para se ingressar, permanecer e ter sucesso no novo mundo do trabalho.


A arte na constituição do humano

A verdade é que somos animais linguísticos e todas as formas de linguagem nos servem de meio de expressão oral, visual ou corporal. O fato de lembrarmo-nos do passado e imaginarmos o futuro permite planejar e agir de um modo que nos torna únicos entre os animais. A verdade é que somos capazes de produzir e, através da comunicação, fazer circular sentidos.


A arte, ainda nos tempos das cavernas, permitiu ao homem compreender a atribuir sentido ao mundo e à sua atividade sobre ele. A capacidade de configurar sua experiência passada e presente e discernir o seu futuro, desde os primórdios da humanidade, é alguma coisa ligada indissoluvelmente à experiência estética.

A vida, em geral, e o mundo do trabalho, em particular, valoriza e recompensa aqueles que apreendem e incorporam – em sua maneira de ver, entender a agir – os padrões novos que – cada vez com maior velocidade – emergem da experiência humana. Isso é particularmente válido para uma época de transição no processo civilizatório, como a que presentemente estamos vivendo.


Foi através da arte que, pela primeira vez, o homem entendeu e representou o mundo em torno de si. A ideia é de que esta atitude não é alguma coisa, que ficou esquecida em algum lugar do nosso passado. Nós carregamos conosco essa capacidade de aprender a configuração do nosso mundo interior ou exterior e objetivá-la em algo dotado de sentido, sem ter, para isso, de recorrer à religião, à filosofia e à ciência. É nisto que consiste a experiência estética.


O senso estético é uma maneira permanentemente válida de apreender o mundo e atuar sobre ele, através de uma atividade dotada de sentido. Isto é especialmente válido quando consideramos como objetivos da educação a realização das potencialidades do ser humano e a sua preparação para a cidadania e o trabalho.


A ciência, a filosofia e a religião também exercem esse papel de preparar o ser humano para compreender e atuar sobre o mundo. Cada qual à sua maneira, essas formas de relacionamento do homem com o mundo natural e humano que o cerca constituem o que há de especificamente humano em nossa natureza, que é a cultura.


Um novo mundo do trabalho

Num mundo do trabalho que se “desmaterializa”, grande parte das habilidades específicas serão aplicadas por máquinas inteligentes, isto é, máquinas capazes de substituir, não somente o esforço muscular humano mas, em medida cada vez maior, o seu esforço cerebral.


Numa situação como essa, as aptidões e destrezas manuais, a capacidade de seguir instruções, a prontidão para obedecer a comandos, a capacidade de concentração tendem a ser, cada vez mais intensamente, substituídas por habilidades básicas e de auto-hetero e co-gestão como: percepção do todo, capacidade de expressar-se, capacidade de manter-se auto-motivado e de motivar os outros, capacidade de contribuir criativamente na solução dos problemas em grupo, de construir em conjunto, de adaptar-se a novas situações, de ensinar e de aprender com os outros, capacidade de avaliar e de deixar-se avaliar.

Num mundo do trabalho onde o emprego na área pública ou privada parece não ser mais a única e, a médio e longo prazos, nem a principal forma de inserção na vida produtiva, é preciso preparar as novas gerações de trabalhadores (não necessariamente de empregados) de forma inteiramente diversa daquela pela qual fomos preparados.


Mais do que observadores de normas, seguidores de instruções e fiéis observantes das rotinas laboriais, o novo mundo do trabalho requer pessoas que sejam criativas, raciocinem e resolvam problemas e, sobretudo, que sejam capazes de autodeterminar-se, assumindo responsabilidades e correndo riscos, ou seja, criando o seu próprio futuro.


Educação, arte e trabalho

Hoje, já existem vários estudos que associam o aumento da escolaridade a ganhos em produtividade e renda por parte dos trabalhadores. Em razão disso, é crescente entre os empregadores o interesse em aumentar os níveis educacionais de sua força de trabalho. Esse interesse, no entanto, restringe-se ao ensino da linguagem, do cálculo e de habilidades específicas. A educação artística é vista como uma espécie de perda de tempo, algo inteiramente acessório, mais próximo do lazer que do trabalho, “um luxo”.


No pólo oposto dessa visão encontramos os arte-educadores. Para eles, a educação artística justifica-se por si mesma. Sua importância está radicada no seu caráter autocriador do humano e seria quase uma afronta associá-la à educação profissional.


Assim, nos deparamos com duas posições antagônicas, mas cujo resultado prático é exatamente o mesmo. A primeira, a de que a educação artística é tão sem importância, que não vale a pena considerá-la como algo de útil na preparação das pessoas para o mundo do trabalho. A segunda, a de que a educação artística é tão importante em si mesma, que é um rebaixamento considerá-la de forma pragmática, como uma modalidade entre outras de preparação para o mundo do trabalho.


A posição que supera o falso dilema vivenciado nessa polarização desnecessária e estreita é a constatação de que a educação artística, tomada em si mesma, sem nenhuma submissão à dimensão produtiva, exerce sobre esta uma influência extremamente positiva. Isso quer dizer que a educação artística não deve e nem necessita tornar-se instrumento da educação profissional. Ela deve, isto sim, é converter-se num poderoso catalisador do desenvolvimento humano, tanto no campo da educação básica, como no campo da educação profissional. Nem paralelismo, nem incorporação, mas convergências e complementaridade.


É certo que, seja para o jovem atuar como empregado no setor público ou privado, seja para atuar como auto-empregado, na economia informal, seja para atuar como empreendedor, em micro, pequenas, médias ou grandes empresas, a educação artística tem tanto a contribuir como a educação básica ou a educação profissional.


A verdade é que, para trabalhar lidando com pessoas, com grupos, com ideias, com formas e relações as mais variadas, o ser humano deverá deter cada vez mais se polivalente, flexível, motivado, motivante e criativo.


Os alunos que montam uma peça de teatro, por exemplo, aprendem:

- a atuar como uma equipe;

- a dirigirem e serem dirigidos;

- a expressar-se com a fala, o corpo e olhar;

- a programar-se dentro de um orçamento limitado;

- a buscar soluções criativas, inventando, adaptando e improvisando;

- a auto-hetero e co-avaliar;

- a ter disciplina de postura, de tempo e de lugar;

- a empenhar-se na busca da qualidade;

- a gostar e a valorizar o sucesso;

- a praticar a melhoria contínua e o respeito pela audiência;

- a repetir uma ação inúmeras vezes, aproximando-se gradativamente do que deve ser.


Nas feições do mundo do trabalho, que está surgindo nesta reta final de século e de milênio, alguns traços já se podem distinguir com nitidez:

- A qualidade deixa de ser diferencial competitivo e torna-se uma condição indispensável para se ingressar e permanecer no mundo do trabalho;

- O trabalho está se desmaterializando, ou seja, lidar com a informação e o conhecimento vai se tornando cada vez mais um requisito mais importante que lidar diretamente com matérias-primas. Esta é a característica mais marcante do ingresso na era pós-industrial;

- A robótica, a telemática e a informática virtualizarão, cada vez mais, o processo de trabalho, através de sons, imagens e símbolos, que o ser humano deverá ser capaz de acessar e aprender de forma instantânea.


O desafio da convergência

Um desafio para a cabal demonstração da convergência e da complementaridade dos mundos da arte e do trabalho, no âmbito da educação artística e no contexto da revolução pós-industrial, é a compreensão de como as habilidades desenvolvidas em um se aplicam ao outro.


Nesse sentido, nos Estados Unidos, educadores estão desenvolvendo padrões curriculares e representantes da indústria vêm desenvolvendo padrões educacionais, com o objetivo de desvelar a compatibilidade e a fecundidade das relações da educação artística com as formas de organização e as tecnologias do novo mundo do trabalho.


A medida em que esse trabalho se desenvolve, vai ficando cada vez mais claro que o conhecimento e a prática de habilidades artísticas pode desenvolver nos jovens competências fundamentais para o sucesso no mundo do trabalho e na vida, de um modo geral, no século 21.


Três grandes eixos já foram identificados, como pontes seguras para o trânsito de benefícios da educação artística para o trabalho:

1º Eixo: habilidades desenvolvidas na educação artística podem ser transferidas para o trabalho e para a vida em geral;

2º Eixo: o conhecimento das artes potencializa a comunicação eficaz;

3º Eixo: a experiência estética propicia uma abordagem criativa à solução de problemas.


No plano objetivo, das artes se pode aprender a trabalhar com o tempo, o espaço, a luz, a cor, o som, o corpo, a voz, compromissos, agendas, recursos financeiros, meios de comunicação social, instrumentos de diversos tipos, materiais, tecnologia etc.


No plano da subjetividade e da intersubjetividade, as artes propiciam o desenvolvimento de habilidades como trabalhar em equipe, planejar, negociar, liderar, ensinar, coordenar, acompanhar, avaliar, comunicar, administrar conflitos e gerar soluções criativas.

Noções fundamentais como processo, raciocínio descontínuo, sistema e visão holística podem ser vivenciadas, através de atividades de educação artística, ao invés de serem apenas transmitidas em termos puramente conceituais. Isto sem falar nos conhecimentos, valores, atitudes, posturas, habilidades e destrezas, que a educação artística necessariamente desenvolve em todos os domínios da experiência estética.


Essa nova maneira de ver a educação artística traz para os educadores, que atuam nessa área, novos e crescentes desafios:

- Desenvolver novas capacidades para o trabalho em equipe;

- Familiarizar-se com as novas tecnologias (informática e telemática);

- Abrir-se a outras culturas e a perspectivas distintas diante do trabalho e da vida;

- Buscar formas novas de aprender e ensinar o trabalho criativo;

- Dedicar tempo à busca e à transmissão das grandes mensagens modeladoras do trabalho e da vida na transição civilizacional que estamos vivendo;

- Construir pontes entre o mundo da educação artística e o mundo do trabalho;

- Divulgar a ideia de que, mais do que uma educação para a arte, a educação artística é uma educação para a vida, no sentido mais pleno do termo.


Conclusão

Estamos vivendo um período de transição civilizacional. A humanidade como um todo está ingressando em uma nova e decisiva etapa de sua evolução histórica.

O mundo do trabalho sofre simultaneamente o impacto modelador de três forças:

- A globalização dos mercados, impondo novos patamares de exigência em termos de produtividade e qualidade na produção de bens e serviços;

- As novas tecnologias, que desvincularam, de forma definitiva, o crescimento da produção do crescimento do emprego e desmaterializaram o trabalho humano, levando a economia e a sociedade à era da informação e do conhecimento;

- As novas formas de organização do trabalho, que exigem um trabalhador diferente em tudo do tipo que prevaleceu no século 20.

As habilidades desenvolvidas pela educação artística, que eram periféricas e minoritárias no sistema produtivo, passam a ocupar uma posição central no perfil do trabalhador requerido pelas transformações deste fim de século e de milênio.

Essas novas habilidades deverão ser desenvolvidas em três cenários:

- Escola

- Ações complementares à escola

- Educação profissional para e pelo trabalho

Em todos esses cenários, a posição ocupada pelo binômio arte-educação deverá ser ampla, profunda e corajosamente revista. Esta é uma causa pela qual vale a pena lutar.

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http://artenaescola.org.br/sala-de-leitura/artigos/artigo.php?id=69318&

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