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Práticas Culturais na Escola: O brincar como modo de ser e estar no mundo

É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto,

pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral e é somente

sendo criativo que o indivíduo descobre o seu eu.

(Winnicott)

O ser humano (homem sapiens) é uma espécie composta por 04 dimensões: logos, pathos, eros e mythos, ou seja, razão, espanto e deslumbre, desejo e mito ou fé[1]. Na história da civilização a razão é a mais privilegiada delas, talvez porque seja um dos grandes diferenciais do homem perante os demais animais. Ela foi de suma importância para a evolução humana no tempo, e todos os impactos percebidos na atualidade, tantos os positivos (como a evolução científica e na medicina), quanto os negativos (como a devastação ambiental) são, em grande parte, resultantes da ação do homem sob a luz da racionalidade.


A instituição escolar, desde sua concepção, vem se ocupando prioritariamente da dimensão racional ou cognitiva do ser humano. Na escola, aprendemos a ler, a escrever, a contar, a entender e analisar fenômenos naturais e a compreender a realidade histórica e social na qual estamos inseridos. Sem dúvida, todos esses conhecimentos e habilidades são imprescindíveis para que o cidadão se movimente em uma sociedade altamente tecnificada[2] como o século XXI e a ausência deles gera, inevitavelmente, uma exclusão social.


Porém, as demais dimensões são igualmente importantes para o exercício da humanidade. Reunindo emoção, desejo e fé, podemos perceber que elas efetivam-se em nossa vida por meio de práticas culturais que realizamos cotidianamente. De acordo com o texto-base da II Conferência Nacional de Cultura do Ministério da Cultura,

(...) é inerente aos seres humanos a capacidade de simbolizar, que se expressa por meio das diversas línguas, valores, crenças e práticas. Toda ação humana é socialmente construída por meio de símbolos que, entrelaçados, formam redes de significados que variam conforme os diferentes contextos sociais e históricos. Nessa perspectiva, também chamada antropológica, a cultura humana é o conjunto de modos de viver, que variam de tal forma que só é possível falar em culturas, no plural. (2009, p.1, grifo nosso)


Assim, valorizar, preservar, renovar e difundir práticas culturais em nossa sociedade é contribuir para o desenvolvimento pessoal e social, uma vez que eles compõem nossa humanidade. Mas como institucionalizar a dimensão cultural no ambiente formal de ensino? Como permitir que o modo de vida tenha o mesmo “valor” que a cognição? Talvez a brincadeira seja uma das melhores respostas.


De acordo com Elvira Souza Lima, em seu Livro Brincar Para quê?, “brincar possibilita a formação de estruturas internas que estão relacionadas a vários aspectos do desenvolvimento.” (LIMA: 2009, p.3), sendo assim, essa prática cultural desenvolve aspectos mentais, corporais, afetivos, sociais, entre outras, contribuindo para um processo de formação integral do cidadão. Além disso, a imagem de uma infância saudável, que consequentemente resultará em uma idade adulta saudável, está diretamente ligada ao exercício da brincadeira.


Nesse sentido, o direito à brincadeira defendido pela Constituição Federal Brasileira, pelo Estatuto da Criança e da Adolescente, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela Carta da Aliança pela Infância, entre outros, é apontado pelo Ministério da Educação como uma das diretrizes para o ensino fundamental como “uma expressão legítima e única da infância” e como “modo de ser e estar no mundo” e defendido por estudiosos como prática cultural relevante para formação humana. Assim, o grande desafio de educadores e educadoras é efetivar momentos lúdicos no contexto escolar, valorizando e disseminando a cultura como modo de vida e agregando valor à prática pedagógica ao atingir dimensões além da cognitiva.


A proposta das formações sobre canções & brincadeiras e práticas culturais no contexto escolar oferecidas pela Partilha Consultoria é empoderar educadores para que, por meio da vivência da arte, de modo livre e despretensioso, possam revolucionar as instituições escolares com alegria, promovendo práticas culturais educativas que estimulem o brincar como modo de ser e estar no mundo e contribuindo para um formação humanizadora, que privilegie logos, pathos, eros e mythos.


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[1] Definições retiradas do site: http://www.filosofia.com.pt/filosofia/termos_gregos.html#g. Acesso em 01/06/2010

[2] Expressão utilizada em referência ao documento “Os 07 Códigos da Modernidade”, de Bernardo Toro.

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